sábado, 22 de setembro de 2012

Decisões da Justiça Eleitoral que preocupam – Aécio pinta e borda e Justiça pune PT


Muitas decisões da Justiça Eleitoral têm se mostrado preocupantes nas eleições desse ano. Uma que chamou atenção aconteceu em Belo Horizonte, pelo mérito da decisão e pelo que não foi considerado em todo o processo. O que aconteceu foi que Aécio Neves mexeu seus pauzinhos pra deixar tudo conforme seus interesses, e no final a Justiça ainda aplicou uma punição à chapa do PT. Aécio não tinha um nome de peso para a sucessão de Minas em 2014. Seu pupilo, atual governador, Antônio Anastasia, não pode mais concorrer. O prefeito de BH, Márcio Lacerda, do PSB, seria um nome bastante competitivo. Mas o presidenciável tucano tinha um obstáculo: o vice, na chapa de Lacerda à reeleição, era um petista. E deixar um petista na prefeitura da capital não podia fazer partes dos planos de Aécio. O prefeito, do PSB, concorreria à reeleição em 2012, com o apoio de tucanos e de petistas. Fazia parte do acordo para ter o apoio do PT, a posição de vice e a coligação proporcional para os vereadores. E isso estava acertado em documento assinado, segundo o presidente nacional do PT. 

No último dia para as coligações, Márcio Lacerda mandou avisar ao PT que mudara de ideia, que não queria mais a chapa proporcional para a câmara. E não tinha volta. Foi o estopim para a frágil aliança. Em questão de horas, o PT decidiu pela candidatura própria. Patrus Ananias foi declarado candidato. Um ponto especialmente intrigante foi que, após o rompimento com o PT, imediatamente Lacerda conseguiu atrair para sua chapa dois partidos que já estavam com candidatos definidos e oficializados, o PTB e o PV. O candidato verde, aliás, era um conhecido crítico da gestão municipal. Dizem que Aécio participou destas costuras políticas. Já os petistas conseguiram o apoio do PMDB, do PC do B, do PRB, do PDT e do PSD, este último por intermédio de Dilma Rousseff. O PSD, porém, ficou dividido. Enquanto a direção nacional optou por Patrus, dirigentes locais gostariam de continuar com Lacerda e o PSDB. A Justiça de Minas garantiu a legenda na chapa de Lacerda.

O juiz relator do processo alegou que “a direção nacional do PSD não concorda com a coligação municipal formada com o PSB, porque esse partido desligou-se do PT. Todavia, no momento da convenção realizada dia 26/06/2012 não havia essa orientação”. O que é estranho, porque a convenção do PSD não teria como imaginar que um acordo seria rompido, especificando o que deveria ser feito, caso o prefeito voltasse atrás em uma posição. Algo assim seria absurdo. A decisão da Justiça também partiu do pressuposto de que Kassab teria interferido indevidamente no processo, e que os defensores da aliança com o prefeito representavam a ‘resistência’, os guardiões do verdadeiro sentimento do PSD de Minas. Essa foi a versão amplamente disseminada pelos meios de comunicação. Kassab era sempre enquadrado como o interventor, com motivações “políticas”. Como se as outras motivações fossem diferentes. A Justiça ainda aplicou multa de R$ 10 mil à chapa de Patrus, e retirou PRB e PDT da coligação. 


Se o apoio do PSD ao Patrus atenderia a interesses externos, nacionais, do PT; por sua vez, o apoio do PSD ao Lacerda também atendeu aos interesses do PSDB, e muito diretamente ao interesse de Aécio Neves, presidenciável tucano. Não há, nesse caso, movimentações que não sejam de natureza política. Diante disso, era de se esperar que a instância nacional de uma legenda tivesse ascendência sobre a instância local, é o mínimo que se entende sobre organização partidária. Mas o pior foi ter considerado as motivações de Kassab menos nobres do que as daqueles que defendiam a aliança com Lacerda – aliados diretos de Aécio. O presidente do diretório estadual do PT chegou a falar com todas as letas que “um acordo assinado foi rasgado. O Márcio [Lacerda] optou por atender aos caprichos do príncipe Aécio”. Todas as ações foram bem administradas, para que Aécio, agora, tenha um candidato ao governo de Minas, um vice-prefeito de BH do seu grupo, o PT alijado de todo o processo, tudo a partir de um problema na coligação dos vereadores que funcionou como cortina de fumaça. E nada disso mereceu uma linha nas análises midiáticas. Como se já não bastassem todos os relatos de que a Imprensa mineira arrasta um bonde pelo Aécio, agora temos essa decisão jurídica bastante esquisita.

sábado, 20 de agosto de 2011

O futuro da esquerda: quadros promissores

Neste post eu reúno quadros políticos de esquerda que podem ser considerados jovens, e que ainda têm muitas eleições pela frente. São principalmente do PT, por este ser o maior partido da esquerda competitiva no Brasil, com 3 mandatos consecutivos na presidência. Neste levantamento, o político mais novo tem 28 anos e o mais velho tem 51. A maioria está na casa dos 40 anos, o que permite mais 2 ou 3 décadas de vida pública, a princípio. Além do critério principal, da idade, procurei selecionar lideranças de todas as regiões do país e que fossem, no mínimo, deputado(a) federal. Se alguém lembrar mais algum quadro, por favor, citar nos comentários. Penso que estes nomes têm potencial para crescerem politicamente em seus respectivos estados. Mas, para permanecer na própria presidência, a esquerda deve apresentar nomes viáveis que, provavelmente, sairão deste leque de opções:

PT

Gleisi Hoffman45 (PR)
Senadora e Ministra Chefe
da Casa Civil
Possível candidata a
governadora do Paraná (2014)
 Fernando Haddad48 (SP)
Ministro da Educação
Possível candidato a
prefeito de São Paulo (2012)
Lindberg Farias41 (RJ)
Senador
Possível candidato a
governador do Rio (2014)

Luizianne Lins42 (CE)
Prefeita de Fortaleza
Possível candidata a
governadora do Ceará (2014)
Marcelo Déda51 (SE)
Governador de Sergipe
Maria do Rosário44 (RS)
Ministra dos Direitos Humanos
Ex-candidata a prefeita
de Porto Alegre (2008)

Nelson Pelegrino50 (BA)
Deputado Federal
Possível candidato a
prefeito de Salvador (2012)
Alessandro Molon39 (RJ)
Deputado Federal
Ex-candidato a prefeito
do Rio (2008)
Ângela Portela49 (RR)
Senadora

Cláudio Puty41 (PA)
Deputado Federal
Presidente da Comissão de Finanças da Câmara

Rogério Carvalho 43 (RJ)
Deputado Federal
Possível candidato a
prefeito de Aracajú (2012)
Gabriel Guimarães28 (MG)
Deputado Federal

Outros Partidos

Eduardo Campos46 
(PSB/PE)
Governador de Pernambuco
 Manuela d’Ávilla30 
(PCdoB / RS)
Deputada Federal
Possível candidata a prefeita de Porto Alegre (2012)
Brizola Neto32 
(PDT / RJ)
Deputado Federal

É preciso considerar que, nas próximas décadas, surgirão novas lideranças que podem ascender rapidamente nas estruturas de poder internas dos partidos. De qualquer forma, as lideranças neste post já estão consideravelmente consolidadas, têm um trabalho reconhecido, além de preparo e compromisso social.

Ademais, é impressionante como o nível da aparência melhorou.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O jornalismo que só pode ser de esgoto

A mídia pode exercer a função de fiscalizar, cobrar, pressionar o Governo. Pelo menos é o que defende boa parte dos jornalistas. “Mídia não pode ser chapa branca”, explicam. De fato, o jornalismo pode ajudar a descobrir coisas erradas e incentivar os governos a mostrar trabalho. Seria válido, se valesse pra todos os partidos, e todas as correntes ideológicas. Os veículos de maior alcance, no Brasil, deram grande visibilidade para as críticas da oposição e os escândalos do Governo Lula, é seguro dizer. Mesmo à figura pessoal do Lula, há sempre certa resistência, por parte do colunismo político. Ao ponto de simpatizantes da esquerda e do lulismo disseminarem-se pela internet com blogs para rebater as versões mais comuns no jornalismo. Seriam tantos esquerdistas complexados? Acometidos de mania de perseguição? Adeptos de uma teoria da conspiração? Alguns, pode ser. Todos, improvável.

Pelo menos este caso, do Paraná, estampa de forma gritante que o jornalismo pode ter preferências e simpatias, usando dois pesos e duas medidas. À época dos mandatos de Requião, Fábio Campanha era implacável! As críticas, as mais duras, eram diárias. Poderíamos aplaudir a postura vigilante, fiscalizadora, republicana, do jornalista. Não fosse a mais abrupta inversão de posicionamento, assim que iniciou o governo do PSDB no Paraná, com Beto Richa. O jornalista passou a uma eufórica tietagem do tucano. Ainda sobram críticas a Requião. Eventualmente, ao Governo Federal. Campana virou crítico ferrenho... da oposição! Exercida naquele estado principalmente pelo PT. Ao governador, o jornalista presta um serviço melhor que o de qualquer assessoria de imprensa. Essa história de jornalista crítico e combativo parece depender da conveniência... Uma pessoa pode ter preferências político-ideológica. Mas, uma coisa é expressá-las como um cidadão comum, outra coisa é travestir militância partidária de "jornalismo".

Campana é colunista político de alguns dos maiores jornais do Paraná: O Estado do Paraná, Tribuna do Paraná e Gazeta do Paraná. É ainda diretor da editora Travessa dos Editores, e editor das revistas Et Cetera e Ideias.

  

 

 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O caso Palocci

Do papel da mídia

Pressão da oposição, por si, não derruba ninguém. Pressão da oposição, o Governo sofre permanentemente, em vários pontos do mandato. Sem a decisiva contribuição da mídia, um episódio como o do Palocci jamais tomaria estas proporções. Mas, convenhamos, um Ministro chave que teve seu patrimônio multiplicado por 20 em alguns anos é algo que para ser amplamente explorado não precisa de mídia golpista, precisa de mídia. Qualquer veículo de comunicação verá neste tipo de episodio um prato cheio – pela relevância do acusado, pela possibilidade de uso do tom alarmista ao qual a mídia predispõe-se, pela intensa movimentação gerada, pela atenção que chama etc. De maneira geral, o jornalismo tem se utilizado destes expedientes, como estratégia de sobrevivência mesmo. A entrevista que Palocci concedeu a Jornal Nacional, por exemplo, garantiu excelentes índices de audiência.

Agora, é evidente que houve exageros e precipitações ao longo de toda a cobertura feita do caso – seja pelo alarmismo de praxe, seja pelas simpatias políticas de quem comenta. Após o ex-Ministro ter falado ao JN, Cristiana Lôbo comentou, no Jornal das 10, que sem a entrevista,”nós estaríamos aqui discutindo os nomes que substituiriam Palocci na Casa Civil”. Pois foi exatamente o que a colega dela, Renata Lo Prete, tinha feito dois blocos antes.E o que a própria Cristiana tinha feito no Fatos Versões do sábado anterior. O que dá bem o tom da precipitação que contaminou a cobertura sobre do tema, desde o começo. E é claro que a cobertura ostensiva, em todos os principais espaços midiáticos, já garante o prolongamento e agravamento do caso, ainda que não haja concretamente um fato novo. Não se trata, portanto, de movimentos ou avaliações exclusivas do mundo político.

Do mérito

Um caso como este manifesta avaliações diametralmente divergentes: desde aquelas que enxergam um delito gravíssimo, que exala tráfico de influência e faz da presença de Palocci no Governo algo que prejudica o país; até aquela que descarta qualquer possibilidade de crime, e reduz tudo ao embate político. Respectivamente, os discursos da oposição e do governo. Diante de um espectro tão amplo de leituras, e considerando a contaminação política que de fato existe, o melhor parece mesmo recorrer à análise do mérito. E, neste caso, o mérito é jurídico. Até o momento, o Procurador Geral da República optou pelo arquivamento do caso, alegando que não há indícios mínimos de atividade criminosa tipificada pela lei.

Considerando os valores estratosféricos que as empresas estão dispostas a pagar – e falamos aqui de algumas das maiores empresas do país – não é de se estranhar a evolução patrimonial de Palocci. É bastante comum que o setor privado invista valores vultosos para atividades de consultoria, palestras etc. O questionamento que pode ser elaborado é no sentido da promiscuidade deste trânsito entre a atividade empresarial e a política, quando certos atores migram de uma para a outra ou conciliam diferentes interesses. A questão é válida, mas seria um trabalho árduo repensar esta relação, na medida em que a maioria dos deputados exerce atividades privadas ou comerciais.

Do desfecho

A presença de Palocci no Governo tornou-se politicamente desvantajosa. O parecer do procurador proporcionou um discurso para a base aliada, e até poderia manter o Ministro na Casa Civil. Porém, isto representaria um custo muito grande. A oposição teria mais respaldo para aprovar a convocação de Palocci ao Congresso e até para conquistar mais assinaturas para uma CPI. A mídia teria justificativa para manter o assunto aquecido. O Governo teria imensa dificuldade para construir o que se denomina “agenda positiva”. Seria muito inviável.

Da imagem de Dilma

Retomando a idéia de que um episódio como este não torna a mídia brasileira golpista, avalio que o tratamento jornalístico concedido à Dilma continua até bastante simpático – profundamente diferente daquele concedido ao Lula. Fora algumas exceções mais afobadas (tipo Merval Pereira), tem sido comum a interpretação de que Dilma tratou o caso com discrição e sobriedade. Claro que algum desgaste é inevitável. Perder o principal Ministro com 5 meses de Governo é um duro golpe. Mas nada que não possa ser dissipado ao longo do tempo, ou que prejudique de forma grave a avaliação da presidenta.

Da alternativa




Glesi é um quadro político em ascensão, inteligente, bem articulada, e defensora competente do Governo. Foi secretária no governo do Mato Grosso do Sul e na prefeitura de Londrina, além de diretora de finanças de Itaipu. É advogada, com especialização em Gestão e Administração Financeira. Politicamente, participou da equipe de transição de Lula, em 2002, e foi presidente do PT no Paraná. Eleitoralmente, concorreu ao Senado em 2006, quando perdeu para Álvaro Dias (apesar do favoritismo do adversário, Gleisi obteve votação expressiva); concorreu ainda à prefeitura de Curitiba em 2008; e foi eleita a senadora mais votada do Paraná, no ano passado, mesmo disputando contra o Governador Roberto Requião (que ficou com a segunda vaga), e com os candidatos da chapa de Beto Richa, do PSDB, que foi eleito Governador. Tem opiniões um pouco mais conservadoras que a média do PT para temas como aborto e direitos de homossexuais. O pouco envolvimento da senadora com o mundo político de Brasília pode ser um mérito. Espera-se de Gleisi Hoffman um trabalho mais técnico, de gestão e menos político, como é a proposta da própria Dilma na presidência. A escolha fortalece muito um quadro petista de grande potencial.