sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A dificuldade da mídia em retratar o Governo

Depois de uma eleição bastante tensionada, com claro confronto entre um das candidaturas e os principais veículos de Comunicação, a estratégia da desqualificação continua muito presente na cobertura jornalística sobre política. Nas eleições presidenciais de 2010, a chamada grande mídia sofreu importante derrota, com a vitória nas urnas de Dilma Rousseff. O fato político que se seguiu, a composição do Ministério Dilma, também recebeu tratamento enviesado pela Imprensa. De fato, muitos dos vícios de análise que os jornalistas apresentaram durante as eleições continuam sendo utilizados. Permanece a necessidade de retratar Dilma Rousseff como alguém despreparada, atrapalhada, inoperante e – é claro – sem capacidade de ação longe do presidente Lula. A estratégia é sempre esvaziar a figura política de Dilma, com a insinuação de que, sem Lula, ela é outra coisa, não tem valor. Por muito tempo, antes da eleição, a grande mídia vendeu a imagem de uma Dilma durona, sem jogo de cintura, sem capacidade de diálogo, ríspida demais ou mesmo grosseira. De alguma maneira, colou.

Eu, pelo menos, vi várias pessoas se referindo a então Ministra desta forma. Mas não foi o suficiente pra barrar a candidatura. Com o início da eleição, foi necessário lançar mão de uma estratégia que revertesse a força política da união das imagens públicas de Lula e sua candidata – algo quase imbatível dada a aprovação do Governo. Logo, oposição e mídia optaram pela desconstrução da imagem da petista, enquadrada como alguém inábil, totalmente dependente, sem comando, sem força, sem luz própria. Uma guinada brusca: de excesso de personalidade, para absoluta falta. Mas, a mídia não se constrange... Lembro que, no começo da campanha, nas primeiras entrevistas de Dilma, muitos jornalistas – acreditando em suas próprias cantilenas – concediam à candidata governista um tratamento condescendente, quase paternalista, como se estivessem lidando com uma criança indefesa, prestes a cometer gafes em série, uma bomba relógio. Muitos entrevistadores repetiam perguntas, alegando que a candidata não tinha entendido a questão. Na imensa maioria das vezes, era a resposta de Dilma que tinha sido complexa demais para a compreensão do jornalista.

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Mas esta prática não mudou. É como uma vocação para o ridículo... Porque não conseguem se livrar de seus vícios de pensamento, agora os jornalistas que avaliam o cenário político brasileiro estão com suas réguas na mão, para media até onde vai Lula e onde começa Dilma no Ministério formado. Querem saber qual nome tem “dedo” de Lula, qual tem “dedo” de Dilma. Afinal, o Governo terá “cara” de um ou da outra? Até onde vai a “sombra” do ex-chefe? Percebam a riqueza e a profundidade dos dilemas jornalísticos. A concepção terminantemente individualista, personalista, impede a imprensa de fazer análises decentes ou honestas. O próprio Lula tem dado respostas como “estranho seria que o Ministério tivesse indicações do Serra...” ou “como foi Chefe da Casa Civil, Dilma conhece melhor que ninguém boa parte dos Ministros, ou seja, a turma é dela tanto quanto dele”. São constatações elementares, e sugerem a compreensão mais adequada.

Claro que indicações para a equipe de Dilma, de Lula, dos governadores, de qualquer chefe do executivo, obedecem a composições partidárias e a questões de governabilidade, algo controverso e questionável sob vários aspectos. O Governo petista teve de ligar com isto desde a era Lula, não muda agora com Dilma, nem mudaria com Serra. A esta altura, já ficou claro quais forças político-partidárias estão alinhadas com o PT e quais não. Mesmo no PMDB, que é ambíguo, como outras legendas, já há divisão entre alas mais governistas e mais oposicionistas. A despeito disto, a “turma” que entra agora no Ministério Dilma não é nem dela, nem de Lula, porque os próprios governos não são dela ou dele. O que está em jogo é um projeto para o país, uma concepção de estado, uma visão política, um campo ideológico, com métodos, práticas e idéias. Quem venceu em 2010 foi este projeto, esta proposta pro país, este conjunto de políticas públicas – que foi representado pelo Lula, e agora é pela Dilma.

Neste sentido, os nomes são menos importante que as ações e programas de governo, seja para o cargo de presidente, seja para os Ministérios. Os indivíduos indicados para as pastas do Governo Federal, antes de estarem vinculados a Lula ou à Dilma, estão vinculados a este projeto. De maneira que a abordagem individualista é bastante pobre para compreende tal processo de montagem da equipe. Não há oposição entre Lula, Dilma, ou outro nome que viesse a representar uma mesma proposta para o país. Há oposição entre Dilma e Serra! Neste caso, não pelos seus atributos individuais ou pelas suas personalidades, mas porque estão situados em campos políticos divergentes. A maioria do povo brasileiro entendeu isto, tanto que elegeu para o mais importante cargo uma mulher sem experiência eleitoral. Isto porque o primordial era a manutenção das políticas públicas vigentes, e não propriamente o indivíduo – um sinal de maturidade na nossa democracia. Na política, mais importante que o embate entre pessoas, é o embate entre idéias, concepções, conteúdos programáticos etc. A eleição de Dilma foi didática neste sentido. Pena que alguns demorem mais pra entender, seja por má vontade, seja por incompetência.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Aniversário de 3 anos do blog

Últimas horas do último dia do mês e eu aqui com a consciência pesada por não ter atualizado o blog. Este seria o primeiro mês, em três anos, sem nenhuma atualização. Seria! Pois cá estou! É o cúmulo do desleixo um blogueiro ficar um mês inteiro sem escrever nada. Especialmente sendo o mês de aniversário do blog que, no caso presente, é novembro. Eu nunca comemorei num dia específico, mas sempre registrei algo ao longo de novembro. Novamente, registro aqui que o blog está completando três anos, em 2010. Recentemente, tenho atualizado muito pouco, quer dizer, menos ainda, porque em nenhum momento eu posso dizer que atualizei muito. O motivo é muito simples: nestes últimos meses estive escrevendo a dissertação do meu mestrado. Devo defendê-la em março do ano que vem, mas preciso entregar a pesquisa completa agora em dezembro.

Não é que a pesquisa tenha me tomado tanto tempo que não teve como escrever para o blog. Tempo, eu tive tanto quanto ou mais, nestes últimos meses. Acontece que a dissertação me tomou fôlego. Todos os textos deste blog foram resultado de um ócio criativo, aqueles momentos deliciosos sem nada pra fazer, que a gente acaba dedicando aos assuntos que nos interessam – pesquisando, vendo na TV, lendo sobre, escrevendo etc. Mas, política, na minha percepção, não é algo sobre o qual você pode sair escrevendo qualquer coisa. Uma análise minimamente sustentável exige elaboração, esforço mental, “fôlego”. Com a dissertação, qualquer esforço mental que eu conseguia esboçar já estava comprometido. Mas tem valido à pena, é o meu primeiro trabalho, assim mais longo, que eu realmente gosto, sinto orgulho de ter feito. Já estou na fase do acabamento, apenas retocando e fazendo ajustes finais.

Não sei como será o próximo ano, mas espero ter tempo pro blog, ou melhor – espero não precisar fazer tanto esforço mental, pra ter disposição pra analisar a política e a mídia. Afinal, pretendo, sim, comemorar o quarto, quinto, décimo ano de blog. Dezembro deve ficar mais animado por aqui, prometo que não será tão parado quanto novembro – o que não diz muito. Tem muita coisa a ser comentada sobre a vitória da Dilma, esta transição entre governos (ou continuação?), as expectativas pro futuro do país etc. Agradeço a todos os visitantes do blog, especialmente aqueles regulares, e peço desculpas pela falta de reciprocidade dos últimos tempos. Junto com o maior compromisso com o blog, prometo voltar a visitar os blogs dos colegas, sempre com coisas interessantes a dizer! De todo modo, obrigado a todos! Até a próxima!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mídia a sabor da militância: a relação de amor entre PSDB e Globo

Na disputa política, o simples fato de um dos lados amar a cobertura feito por um conjunto de veículos e o outro lado odiar esta mesma cobertura já não é altamente indicativo sobre a natureza desta cobertura? Vamos a dois episódios recentes que ilustram esta realidade. Primeiramente, o caso Paulo Preto. Na rodada de entrevista com os presidenciáveis que o Jornal Nacional fez neste segundo turno, William Bonner explicou que trataria ali dos temas mais relevantes na disputa, naquele momento. Não se ateria às propostas dos candidatos, necessidades prementes do povo, questões administrativas ou de gestão pública. Não. Nada disso. Abordaria “temas relevantes”. É uma categoria um tanto subjetiva, mas ok... É válido. Creio que dá mais audiência do que aspectos mais técnicos. Diante disto, para Dilma, Bonner perguntou sobre aborto, sobre a Erenice e sobre desavenças entre Ciro Gomes e o PMDB. Realmente, temas que tiveram grande visibilidade na campanha até aquele momento.

Já para Serra, dentre outras coisas, Bonner perguntou sobre Paulo Preto. O caso é certamente relevante, dadas a proximidade do engenheiro com tucanos poderosos, as importantes obras que chefiou nos governos tucanos em SP e as graves denúncias que pesam contra ele. Paulo Preto teria usurpado 4 milhões de reais que seriam destinados à campanha de Serra, como contribuição ilegal. A história foi veiculada no portal Terra, na Folha de São Paulo, na Record, é capa desta semana da Isto É, dentre outros veículos. Mas, sabem quantas reportagens os telejornais da Globo (e Globo News) fizeram sobre o caso? Zero. Absolutamente nenhuma. Sequer mencionaram Paulo Preto em sua cobertura. Como pode o maior jornal do país não fazer uma matéria sequer sobre um episódio que o próprio editor-chefe admite ser dos mais relevantes na eleição? O caso Erenice, eles exploraram exaustivamente, todos dos dias por várias semanas, causando considerável prejuízo à campanha da Dilma.


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Tem que mostrar mesmo o caso Erenice! É algo chocante, repugnante, que merece ser denunciado e cobrado de quem for responsável. Mas um trabalho jornalístico de fiscalização, vigilância, que é republicano e salutar, torna-se vil e baixo quando funciona apenas para u
m dos lados. A candidatura Serra é poupada dos estragos que seriam causados, caso os telejornais da Globo tivesses a mesma postura diante do PSDB. Que credibilidade resta a essa emissora? Como acreditar nas denúncias e na cobertura jornalística que faz a Globo? Isto seria bem menos grave se eu tivesse começado este blog hoje. Mas eu estou há 3 anos já alertando para exatamente este padrão que se repete na cobertura que os grandes veículos – Globo, Folha, Estadão, Veja etc. – fazem da política brasileira. Não apenas eu, né? Milhares de outros blogs espalhados por aí.

Ontem o Jornal Nacional fez um esforço homérico para restituir a Serra a posição de vítima de uma bolinha de papel. Ok, não se joga bolinha de papel, rolo de durex, nem balão com água em ninguém. E, de fato, o Presidente Lula se precipitou e falou mais do que devia. Mas não está totalmente comprovado que outro objeto atingiu Serra. Eu até acho muito improvável que Serra tenha encenado tudo, mas um Jornal não pode assumir como fato irrefutável algo que ainda é nebuloso, apenas para beneficiar uma candidatura. O vídeo que supostamente comprova que outro objeto – além da bolinha de papel – alveja Serra não mostra NADA! Mas a prioridade do JN é sempre mostrar os aspectos dos episódios que mais favorecem o PSDB. Tucanos e militantes, ontem, comemoraram efusivamente a matéria do JN. O que nos remete ao meu ponto inicial: sempre, um dos lados ama, idolatra, fica eufórico com a cobertura de alguns veículos; enquanto o outro lado está sempre inconformado com esta mesma cobertura, e precisa recorrer a veículos destoantes, que fazem algo de diferente. Por si, este retrato não é incrivelmente eloqüente sobre o nosso país?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sobre o segundo turno e o terrorismo eleitoral

Já está bastante evidente a influência de temas morais nas eleições deste ano. Claro que outros fatores, como a utilização de escândalos contra a candidatura governista e a maior taxa de abstinência em regiões em que Dilma tem maior votação, contribuíram para o segundo turno. Mas está cada vez mais evidente o importante papel desempenhado pela boataria contra o PT, em função de temas como aborto e homossexualidade. Na grande imprensa, muitos comentaristas já escreveram sobre o assunto. Para José Roberto Toledo, do Estadão, a Internet foi o principal canal para as ações difamatórias. Mas mensagens de celular costumam ser bastante utilizadas neste tipo de estratégia. Houve também um panfleto anti-Dilma ligado à TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade) que chegou à cúpula tucana.

Certamente, esta movimentação de setores conservadores da sociedade brasileira ajudou a alavancar a candidatura Marina, jogando as eleições para o segundo turno. Na mesma proporção, está tirando votos de Dilma. O difícil é saber a dimensão deste movimento e que efeitos ainda pode surtir. Em outras palavras, ninguém tem como saber se Dilma já caiu tudo o que tinha de cair. A grande incógnita é em relação ao percentual de brasileiros que pode mudar o voto apenas com base em orientações de cunho religioso, ou priorizando este aspecto. De fato, muitos católicos e evangélicos, ainda que aprovem a candidatura governista do ponto de vista econômico e social, podem abandonar o PT se vierem a entender que Dilma trabalhará na presidência para descriminalizar a prática abortiva ou reconhecer a união civil entre gays.

Do ponto de vista dos direitos civis, o prejuízo é tremendo. Aquele campo político – efetivamente popular, liderado hoje pelo presidente Lula – que tinha compromisso com bandeiras progressistas terá de fazer inúmeras concessões e abandonar pontos de vista históricos, para manter as chances de continuar na presidência. Verifica-se que está despertando na sociedade os sentimentos mais obscuros, retrógrados e fundamentalistas. No Entre Aspas desta quinta-feira, um dos convidados relatou que freqüentou uma igreja evangélica em que o pastor discorreu longamente sobre os perigos que o PT representa. Ao final do culto, o pastor perguntou “Então, em quem vocês não vão votar?”. Os fiéis, erguendo os punhos em riste, gritavam: “Dilma! Dilma! Dilma!”. No vídeo abaixo, um padre da Rede Canção Nova estimula as pessoas a, não apenas votarem contra o PT, mas também a disseminaram esta mensagem.

Infelizmente, os grupos religiosos podem virar esta eleição. São extremamente articulados, coesos, e podem mudar sua opinião com muita facilidade. Basta a sinalização de uma liderança, a evocação de um “fundamento”, um dogma, aos quais devem obedecer, sem questionamentos, sem resistência. Dilma está no corner, encurralada, a pior posição para um candidato. O desafio é articular com lideranças religiosas para reverter o quadro e, infelizmente, conceder as garantias que forem necessárias, em nome de algo maior. Por outro lado, a candidatura governista precisa estabelecer outra agenda eleitoral, politizar a campanha, trazer mais temas para o debate, e fugir desta seara tão desfavorável. Os outros temas tendem a beneficiar o governo, nem todos os cristão serão levados pela onda difamatória, e Dilma terminou o primeiro turno a 3 pontos percentuais da vitória. Nem tudo está perdido. Agora, muito mais que em 2002, a esperança tem de vencer o medo.