sexta-feira, 6 de junho de 2008

Quem segura esse país?

O Senador Aloizio Mercadante (PT/SP) tem se dedicado bastante ao estudo das recentes reservas de petróleo que a Petrobras descobriu. Para o Senador, o Brasil vai tornar-se uma “potência petrolífera tardia” [1]. Em entrevista à TV Estadão [1] (e ao Brasília Ao Vivo, da Record News [2]), Mercadante explicou que “o petróleo será cada vez mais uma matéria-prima decisiva na economia mundial, não só porque os preços estão hoje em U$ 125,00 (por barril) e vêm crescendo [...], mas porque também nos últimos 30 anos não houve nenhuma grande reserva nova sendo descoberta”. As classificações de grau de investimento pelas agências Standard & Poor's e Fitch certificam que o Brasil está em outro patamar. Nosso país tem, de fato, juntamente com China, Índia e Rússia, a possibilidade de tornar-se uma das principais economias do mundo, no prazo de algumas décadas.

É claro, isso se vencermos alguns desafios importantes: educação, carga tributária, infra-estrutura e logística, energia e Juros. Este último é o inimigo disfarçado, o grande coringa. Pelo menos na teoria, todos desejam educação de maior qualidade, que a carga tributária seja reduzida a níveis sustentáveis, uma infra-estrutura mais eficaz e geração de energia suficiente para sustentar nosso desenvolvimento. Mas, em relação aos Juros, a coisa não é tão simples, muitos alegam ser este o nosso grande obstáculo, o que impede o nosso país de alçar vôo. Entretanto, os Juros altos são um recurso que o Banco Central possui para enfrentar outro grande inimigo, possivelmente o pior deles: inflação. A grande função do BC, no Brasil, é perseguir a meta inflacionária. Em outros países, como Estados Unidos, o Banco Central procura um equilíbrio entre inflação e produtividade. Ainda não atingimos este nível. Aqui, elevação dos preços é o pesadelo da população e de qualquer governante.

Juros altos seguram a inflação e sabotam o crescimento. Juros baixos estimulam o crescimento, mas abrem margem para um processo inflacionário. Eis o dilema! Juros não é a única arma para o controle inflacionário. Há anos, a FIESP – Federação das Indústrias de São Paulo – bate na tecla de que uma redução dos gastos do Governo aliviaria a pressão sobre os preços e evitaria que o BC precisasse subir os juros para segurar o processo inflacionário [3]. É possível dizer que o corte nas despesas correntes do Governo é uma bandeira do empresariado brasileiro, como um todo [4]. Qualquer empresário precisa de previsibilidade e de uma expectativa de crescimento econômico para fazer seus investimentos, e todos ganharíamos com isso. Mais investimentos implicam mais emprego e renda para a população. O Governo, geralmente, alega que não é fácil eliminar gastos. De fato, falar é muito fácil, é preciso apontar que gastos são “excessivos”, ou seja, como e o que cortar.

O orçamento do Estado brasileiro tem alguns compromissos ingratos: dívida pública, previdência e funcionalismo. No que diz respeito à dívida pública, acho que fizemos importantes avanços. Lentos, mas importantes. Ainda gastamos muito com dívida, pior: com os juros da dívida. Mas a situação fiscal do Brasil está mais confortável agora do que há 10 anos. Hoje, temos mais reservas cambiais do que dívida externa. Melhor! Já a previdência tem um déficit histórico. O Senador Paulo Paim (PT/RS) derrubou este ano, no Senado, o fator previdenciário, criado no Governo Fernando Henrique para reduzir em até 40% as aposentadorias e pensões dos que integram o Regime Geral da Previdência. O fator previdenciário prejudica principalmente os mais pobres, que começam a trabalhar mais cedo. Dificilmente a proposta de Paim passa na câmara, e se passar será vetada por Lula, tal é o suposto rombo da previdência.

Já em relação aos funcionários do Governo, penso que muito pode ser feito: racionalizando a quantidade (averiguando quais são realmente necessários) e melhorando a gestão (para que esta mesma estrutura ofereça melhores serviços à população). O problema é extremamente complexo, e acho até que o Governo pode manter um extenso quadro de servidores. É melhor do que terceirizar serviços (acaba saindo mais barato). Entretanto, muitos ministérios poderiam ser enxugados, secretarias poderiam ser aglutinadas e, consequentemente, servidores poderiam ser dispensados. Nada acontece. Talvez por falta da famigerada “vontade política”, ou por falta de um projeto de desenvolvimento mais estratégico. Quando o quadro geral vai bem, costumamos subestimar certos problemas e negligenciar determinadas prioridades. Deveria ser o contrario: tínhamos que aproveitar a boa fase para corrigir falhas estruturais e garantir a continuidade dos avanços.

7 comentários:

  1. O que posso dizer é: O melhor do Brasil é o povo. O pior do Brasil é a elite que sempre nos desgovernou.

    ResponderExcluir
  2. Juros são o reflexo do quadro econômico e do histórico político de um país. O simples fato de termos, ainda, memória inflacionária, já é suficiente para termos um patamar de juros além do desejável.

    O quadro econômico tem melhorado ao longo dos últimos 15 anos, o que possibilitou certa queda nos juros.

    O histórico político também saboreia mudanças positivas, mas elas são bem mais lentas. Consolidar uma democracia leva muito mais tempo que derrubá-la.

    Entretanto, os pricipais fatores aceleradores da queda dos juros vêm sendo negligenciados pelos últimos governos - principalmente o atual: o corte nos gastos e as reformas estruturais.

    Estes, na minha opinião, deverão ser os principais pontos a serem resolvidos pelo próximo presidente da república. Ou caminhamos para a consolidação do país como força mundial ou continuaremos apenas surfando nas ondas do crescimento mundial.

    ResponderExcluir
  3. Crescimento e inflação.

    O Crescimento e inflação são indices que só podem ser avaliados conjuntamente. Um grande problema que o país enfrenta é a inflação de custos, ou seja, a alta do petroleo e dos alimentos e da carga tributária e outras coisas que façam aumentar, de fato, o custo dos produtos. Esse tipo de inflação é a pior porque não adianta aumentar juros como geralmente se faz quando existe inflação por excesso de demanda.

    ResponderExcluir
  4. Mas, no caso da inflação do arroz e feijão, eu não entendo qual a relação com o elevado preço do Petróleo. Esses alimentos são produzidos aqui! Não sei de aumento de carga tributária nestes produtos também. Acho que a alta dos juros é necessária neste momento, sim. Com o consumo das famílias crescendo muito e o consumo do Governo crescendo mais ainda, os preços aumentam devido à demanda.

    ResponderExcluir
  5. Mundo Progressista24 de junho de 2008 14:10

    Uma informaçao para o "crapulamor". Cara, isso pode parecer inacreditável, mas o Brasil importa arroz!!! O Brasil importa milho tb!!! Entao, antes do Mercandante ficar fazendo previsoes mirabolantes tem que mandar o governo do partido dele distribuir riquezas de verdade, financiar a agricultura, fazer reforma agrária, investir em ciência e tecnologia e levar muitos, mas muitos recursos mesmo para a educaçao das crianças e adolescentes desse País. o resto, é o resto. Abçao.

    Mundo Progressista – Notícias, atualidades e vídeos

    ResponderExcluir
  6. Mundo Progressista,

    o arroz é produzido para consumo interno na grande maioria dos países. Cerca de 75% da safra mundial fica no país em que foi produzida. Por isso, ao contrário do que você pensa, o problema não é o arroz importado. Os fatores que inflacionam este cereal são internos: demanda com forte crescimento e produção insuficiente para abastecer esta procura.

    Não acho que o Mercadante precisa parar de estudar as possibilidades do Brasil na área do Petróleo, para o Governo fazer o que quer que seja. Esse discurso é reducionista, deturpado e tem um quê de demagogia. Vai naquela linha "antes de defender o Lobo Guará, é preciso tirar as criancinhas das ruas". Dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Óbvio!

    É evidente que a questão agrária no Brasil precisa avançar, mas este Governo tem sido muito mais competente nesta área. Desde 2002, os recursos voltados ao financiamento da agricultura familiar (pelo Pronaf) quase triplicaram. O Conab também expandiu muito suas atividades e hoje compra a produção de dezenas de milhares de pequenos agricultores.

    Sobre investir em ciência e tecnologia e levar muitos recursos para a educação, eu concordo integralmente. Claro! Quem seria contra?

    ResponderExcluir
  7. Crápula Mor,

    Quanto ao Arroz e Feijão, apesar de eles serem produzidos aqui a demanda mundial fez inflacionar esses produtos.

    Aumentar os juros não resolve nada porque são produtos comprados sempre a vista. O que precisaria ser feito é algo para aumentar a produção e fazer com que esta não seja exportada antes de atender devidamente a demanda nacional.

    ResponderExcluir