terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Creu. Não tem velocidade zero?

Quem não conhecia, passou a conhecer no último domingo pelo Fantástico. A matéria mostrou as pessoas nas praias dançando o “Creu” (leia-se ‘créu’), do Mc Creu, que vai da velocidade 1 a 5, ou seja, o Creu vai acelerando! Mostraram também algumas pessoas criticando o estilo do cantor (na frente do próprio), que alegavam letra inapropriada para crianças ou para pessoas mais idosas, falta de qualquer tipo de conteúdo e, até mesmo, um possível constrangimento ao ouvir a música junto de um familiar de mais idade. (Adendo: a Globo bem que poderia se acostumar a mostrar os dois lados das coisas, daqui uns anos pode até estar fazendo jornalismo de verdade!). O Mc, que ouvia atentamente todas as críticas, argumentou que o seu objetivo é, simplesmente, levar entretenimento. Não tem mais nenhuma pretensão.

Com quem eu concordo nesta história toda? Com o... Mc Creu! Isso mesmo! Apesar de achar a música uma verdadeira aberração e de desejar que ela nunca passasse da velocidade zero, não acho que todo mundo tem que pensar como eu ou ter o mesmo gosto. Acho, sim, que há espaço para músicas que propõem pura diversão. Se há quem goste de fazer e quem goste de escutar, problema deles! Não vão comprar o CD com o meu dinheiro mesmo! A verdade é que ninguém tem condições de classificar de forma incontestável o que é música “boa” ou “ruim”. Isso abriria um precedente muito questionável, de ponto de vista cultural. É subjetivo, e sempre será! Eu parto do princípio de que não tenho direito ou autoridade para determinar o que as pessoas devem ou não ouvir.

O problema é que as gravadoras e rádios, em geral, acreditam ter este direito! Pensam que as pessoas são obrigadas a ouvir sempre os mesmos artistas e os mesmos tipos de música. É evidente, músicas no estilo “Creu” são mais comerciais, e o compromisso da Indústria Fonográfica é com o lucro! A desculpa é sempre a de que o ouvinte (ou consumidor de CDs) tem autonomia para trocar de rádio. Como se a quantidade de rádios fosse infindável, e não restrita. Ninguém contesta a liberdade da audiência para consumir ou não determinado produto, mas é claro que os veículos de comunicação possuem influência sobre os mercados. Até porque estes têm nas mãos o privilégio de divulgar amplamente determinado cantor.

Não acho que a questão seja necessariamente o “mau gosto” do brasileiro. Admito que, se atrocidades como o Creu fazem sucesso, é porque tem quem ouça! E quem ouve tem responsabilidade direta neste nivelamento por baixo da qualidade da música popular brasileira. Mas se, de repente, os magnatas da música resolvessem investir pesadamente em coisas de “maior qualidade”, quem garante que também não fariam sucesso? O ouvido do brasileiro não é naturalmente inferior! Já viram o que anda fazendo sucesso na França?! (Vídeo 01). E não pensem que é só na periferia! Toca nas boates de Paris também! Aliás, teve até brasileira gravando por lá! (Vídeo 02). Se ela for longe no BBB8, é possível que comece a tocar por aqui também. Guardadas as devidas proporções (e os diferentes contextos), a lógica capitalista é a mesma em qualquer lugar!

Em maior ou menor grau, todos os países devem ter suas ovelhas negras musicais.
Crucificar “o povo” é um escapismo conveniente, elitista e um tanto moralista. Particularmente, não penso que "cultura" está apenas nos museus ou nos concertos líricos, está igualmente em manifestações que reproduzem a realidade e as características de determinada comunidade, em determinado momento. Mas, este é um debate extremamente complexo! E eu não sou antropólogo! Por outro lado, reconheço que ninguém é obrigado a passar as férias escutando indecências. Mas de quem é a maior culpa? Do cara que fez a música lá na casa dele, das pessoas que eventualmente gostam de ouvir, ou de uma Indústria viciada que executa insistentemente os mesmos ‘hits’ e dá preferência absoluta a este gênero musical?


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4 comentários:

  1. Acredito que um dos grandes problemas é como pensamos a cutura. Os ditos intelectuais não querem ampliar a cultura de modo significativo, preferem que ela fique restrita ao seu meio social, ao seu grupinho.
    Rádio? É o meio de comunicação mais popular, logo é lugar de passar músicas "baixas" como a citada acima.
    Aí, de repente, uma prefeitura qualquer promove um evento de graça, em uma praça qualquer, onde músicos tocam música erudita, por exemplo. O que esperar do público, se eles praticamente não tiveram acesso a esse tipo de música? Se as rádio os entopem de músicas "comerciais"? Porém, não deixa de ser uma atitude louvável, mas eficaz apenas com a ajuda de outras elementos.
    E olha que não estou procurando justificar a falta de educação das pessoas em mutas oportunidades, e não digo da classe menos favorecida, e sim da mais favorecida, a qual não sabe se portar nem em um teatro, como o Teatro da Paz. Esses sim, que já tiveram acesso a uma cultura mais ampla, escolheram o caminho da falta de educação por livre e espontânea vontade.
    É engraçada a comparação, pois o indivíduo que não gosta dessa mesma música erudita, essa servindo apenas de exemplo, ao não estar confortável em um concerto, também tem vontade de se levantar e ir embora, mas não levanta. Por quê?

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  2. muito bom, tio :D
    você rockeia demaaais, amei o blog *.*
    vou ler sempre, agora
    eu não sou suficientemente esperta (e sou muito preguiçosa) pra fazer um comentário enorme e talz, mas acho muito que esse negócio de creu sux :P


    beijo, muito bom o blog =**

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  3. Fala, Ruan! Aqui é o Igor, de Belém (ainda). Li o blog no início, mas as visitas pararam por um tempo e parei de acompanhar. Só agora resolvi olhar de novo. Fiz bem!

    Lembro que a minha maior indignação com esse tipo de música apelativa foi há uns bons anos, com uma apresentação de um grupo de pagode no Sabadão Sertanejo (onde rolava todo tipo de música popular). A 'música' era algo "ela tá dançando e o pimpolho tá de olho" e o pimpolho era um menino de uns 8 anos que rebolava atônito até o chão seguido pela gostosa do grupo, se pondo na frente dos olhos do garoto pra fazer jus à música. Senti vergonha da cena, enjôo, mal-estar...

    Hoje ainda me espanto, mas longe do impacto que tive com o tal pagode. Esse créu me fez até achar graça, de tão ridículo. Pra alguma coisa boa serviu...

    Li o comentário do Seguin acima e, aproveitando o tema da ampliação e do acesso à cultura, já vi que tem gravação do Creu nos cds piratas vendidos nas ruas, assim tb como vem clipes de dança da música, remixagens, enfim. Além do rádio e da indústria fonográfica, a pirataria ajuda a consolidar esse tipo de música. E isso porque a música toca nas rádios, que não é um meio elitista. O que dizer do cinema, então...

    Abraços

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  4. Esse foi um post realmente interessante, Ruan. Concordo com todo ele.

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